Estrangeiro em Mim

Rilke já dizia que toda a obra de arte é boa, quando nasce por necessidade. O presente projeto de pesquisa surgiu, assim, por pura necessidade de sobrevivência emocional. Lembrando Merleau-Ponty, é como se houvesse na ocupação do artista. “uma urgência que ultrapassa qualquer outra urgência”, uma necessidade física de criar, de transformar, de forma positiva, os desafios do dia a dia (Ponty, 2009:17), ou, para empregar um conceito de Deleuze, usar a arte como forma de resistência.

Emigrar é sempre um desafio. Além das dificuldades quotidianas de adaptação a uma nova realidade e cultura, da saudade dos amigos e da família, e dos obstáculos burocráticos durante o processo da legalização, existe ainda o desafio de manter a própria identidade, una e forte, mesmo perante confrontos e adversidades.

 “Arrancar-se à sua cultura tem um preço alto. Por isso, é tão importante ter a sua própria identidade bem vincada, sentir a sua força, o seu valor e a sua maturidade. Só assim o homem pode confrontar-se sem complexos, com uma outra cultura. Caso contrário, vai refugiar-se no seu esconderijo e desprender-se, com medo, dos Outros. A verdade é que o Outro é o espelho onde me revejo e onde me vêem; é um espelho que me desvenda e que me despe, algo que eu preferia evitar” (Kapuscinski, 2009:92)

Mudar de país e cultura é quase um processo de renascimento, uma vez que temos que nos redescobrir nesse novo contexto. É inevitável começar a percorrer um caminho de autoconhecimento durante o percurso migratório. “O caminho é tanto mais importante quanto cada passo nos aproxima mais do Outro:” (Kapuscinski, 2009:15)

Quando emigramos, levamos juntamente com nossa bagagem, uma mala extra, pesada mas invisível, recheada com o peso simbólico da nossa nacionalidade, da qual só nos damos conta quando cruzamos a fronteira do nosso país e passamos a confrontar a nossa visão de mundo com valores e formas de estar e viver diferentes das nossas. Emigrar implica lidar com conflitos inevitáveis entre culturas diferentes, o que inclui, também, enfrentar os estereótipos e os preconceitos nas percepções mútuas. Todos esses fatores afetam, de forma decisiva, a vida dos imigrantes na sociedade de acolhimento pois que, ao serem associados a esse imaginário deturpado, são frequentemente vítimas de preconceito, nomeadamente dentro do contexto laboral e nos relacionamentos interpessoais.

Consumimos os estereótipos sem os questionar, como consumimos produtos de um supermercado. Tendemos a formatar as pessoas a uma embalagem mental onde as encaixamos, independentemente “do produto”.

Assim, foi justamente a partir da reflexão sobre essas questões e da própria experiência como imigrante, que surgiu o desejo, ou porque não dizer, a necessidade, de refletir no meu próprio trabalho, questões como: a identidade fragmentada no contexto da diáspora; a frequente inadaptação a uma nova cultura, em contraposição à vontade de redescobrir a minha própria cultura; a invisibilidade social dos imigrantes; e os estereótipos interculturais.

A associação inicial da burocracia com os carimbos utilizados para construir os desenhos foi inevitável. Ao longo da pesquisa, os carimbos demonstraram ser metáforas visuais ideais para a própria ideia do estereótipo. Busquei então, através da compreensão dos mecanismos que constroem e sustentam os estereótipos, encontrar as “armas” capazes de contribuir para a desconstrução dessa forma distorcida de analisar o outro. Uma vez que sabemos que o estereótipo é uma forma generalizante de descrever uma pessoa ou grupo social, não se baseando numa experiência real e direta, compreende-se que filtremos a realidade do outro através das nossas próprias “lentes culturais”, o que implica, muitas vezes, uma percepção onde se confunde realidade e ilusão.

Partindo desta dicotomia, realidade e ilusão, procurou-se questionar a capacidade de compreender e analisar o mundo à nossa volta, mostrar que nem tudo é o que parece à primeira vista. A série de auto-retratos realizada a partir da fotografia do meu passaporte, apresenta ao espectador uma dupla ilusão num discurso pictórico de tom enganosamente tradicional. As obras revelam os conceitos que construíram a imagem, produzindo ambiguidades, desmontando os mecanismos que usamos para construir a nossa realidade visual, questionando a nossa tendência natural de julgarmos os outros segundo conceitos pré-estabelecidos. Na relação imagem e texto, utilizada nos desenhos, o projeto lida, também, com a questão da identidade e de como a linguagem pode determinar uma identidade (ainda que não corresponda à realidade). E embora sendo auto-retrato, ultrapassa uma simples personificação para abarcar aspectos mais coletivos sobre a imigração e sobre nossa dificuldade em compreender e aceitar o outro.

 

 © 2013-20 Letícia Barreto

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