© 2013 Letícia Barreto

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Quase da Família / Almost Family

Houve um tempo no qual crianças de famílias abastadas eram amamentadas e criadas por mães pretas. As amas de leite, primeiramente senhoras escravizadas, e depois da abolição, alugadas para o efeito, eram quase sempre negras. 

Obrigadas a entregar seus próprios filhos na roda dos enjeitados, pois eram proibidas por lei a amamentar mais do que uma criança, essas mulheres transferiam seus afetos aos filhos dos senhores, muitas vezes cuidando deles para além do período da amamentação. 

E embora por anos tenham dedicado todo seu amor e atenção à essas crianças, são poucos os registos dessas senhoras em fotografia e filmagens. Nas imagens existentes são apresentadas elegantemente vestidas, com roupas emprestadas da "sinhá" ou então à moda africana. Seriam essas imagens um raro registro de quem criou essas crianças com amor e dedicação ou uma tentativa de apresentar uma imagem adocicada da escravidão brasileira? 

As amas e mucamas que trabahavam na casa grande são hoje as babás e trabalhadoras domésticas. Essas senhoras, que muitas vezes vem de outras cidades ou Estados, deixam filhos com familiares ou amigos para tentar a sorte na cidade grande, cuidando de filhos e lares que não são seus, carregam em si a marca dessa violência simbólica histórica.  No Brasil quase 80% das trabalhadoras domésticas são negras. 

Nenhuma expressão poderia resumir tão bem a relação entre patrões e babás ou empregadas domésticas no Brasil como o "Quase da família". 

Ser quase da família é um não lugar. Como disse o ator Lázaro Ramos, "ela de certa forma abandona sua família e nunca entra na outra." 

Dessas senhoras sobram doces memórias ou apenas sombras apagadas no tempo ? 

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